Se a pessoa for saudável, é mais provável que não.
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Pergunta: Cinco presidentes e ex-presidentes de países sul-americanos, incluindo o venezuelano Hugo Chavez, foram recentemente diagnosticados com câncer. No dia 28 de dezembro, Chavez insinuou que agentes dos Estados Unidos poderiam estar induzindo a doença em líderes sul-americanos, envenenando-os com uma substância indeterminada. O Departamento de Estado dos Estados Unidos negou a afirmação de Chavez. É possível transmitir câncer a alguém?
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Resposta: Não de modo confiável. Injetar células cancerosas em uma pessoa não é o bastante para transmitir a doença. O tecido anormal deve penetrar e crescer em outras áreas do corpo. Se células cancerosas vivas fossem injetadas em alguém, o sistema imunológico muito provavelmente atacaria e destruiria o tecido estranho. Em tese, agentes secretos teriam sido capazes de induzir o câncer em um presidente sul-americano de esquerda com um sistema imunológico enfraquecido. Ou, talvez, eles tivessem coletado uma amostra de seu tecido, exposto a um carcinógeno para, então, reintroduzi-la em seu corpo. No entanto, até onde este humilde explicador sabe, essas técnicas nunca foram capazes de transmitir o câncer.
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Mas se é difícil induzir o câncer em um inimigo, é certamente possível aumentar suas chances de desenvolver a doença. E o modo mais eficaz de fazer isso é usar radiação. Os oncologistas implantam pequenos dispositivos que emitem radiação em alguns pacientes para combater o câncer. Não se pode dizer o quanto um dispositivo como esse seria capaz de aumentar o risco de um indivíduo saudável contrair um câncer. Mas deixar um modelo de alta intensidade dentro do corpo por algumas semanas poderia resultar em uma dose considerável de radiação. No entanto, a vítima provavelmente notaria o implante. Eles são grandes demais para uma seringa comum e teriam que ser introduzidos com o auxílio de um cateter.
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Ao invés disso, contaminar a alimentação da vítima com altos níveis de aflatoxina, uma substância associada ao câncer de fígado, poderia ser eficaz. Ou então, infectá-la com qualquer um dos inúmeros agentes biológicos cancerígenos. A helicobacter pylori contribui para o desenvolvimento do câncer de estômago e o vírus do papiloma humano pode causar alguns tipos de câncer, como o câncer cervical ou o câncer anal. Mas essas táticas possivelmente levariam tempo até produzir um câncer e o mais provável é que não tivessem qualquer efeito sobre a vítima. Em locais com alta exposição a aflatoxinas, como a China e algumas partes da África, menos de um em cada mil habitantes desenvolve o câncer de fígado.
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A maior parte das pesquisas sobre a possibilidade de se implantar o câncer em seres humanos ocorreu há décadas. Nos anos 50, o Dr. Chester Southam ganhou notoriedade por injetar células cancerosas vivas em centenas de pacientes de câncer e presidiários saudáveis. Southam não estava tentando transmitir câncer aos seus sujeitos de pesquisa. Ao invés disso, ele estava testando a eficiência do sistema imunológico de seus pacientes no combate a essas células.
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Ele tinha tanta certeza de que o organismo de seus pacientes resistiria aos invasores, que julgou desnecessário contar aos pacientes o que estava fazendo. Nenhum dos pacientes de Southam desenvolveu câncer metastático por causa das injeções e grande parte dos oncologistas de hoje acredita que o experimento apresentava poucos riscos aos sujeitos. (Um dos pacientes mostrou sinais de um desenvolvimento potencial da doença antes de morrer em decorrência de uma outra enfermidade). No entanto, Southam foi punido por práticas fraudulentas e o caso ajudou a estabelecer as normas modernas de consentimento informado.
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Os experimentos de Southam foram abandonados nos anos 50, mas ele não foi o último médico a injetar células cancerosas vivas em um paciente. Em 2009, um médico taiwanês envolvido em fraudes contra planos de saúde foi acusado de implantar células cancerosas uterinas em pacientes saudáveis. Os planos de saúde perderam mais de 660.000 dólares, mas nenhuma das vítimas desenvolveu o câncer.
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Hoje, a prática ética da medicina prevê que células cancerosas vivas sejam injetadas apenas em animais de laboratório, como camundongos e ratos. Na maioria dos casos, essas células são inseridas em animais cujo sistema imunológico é fraco, ou então em roedores que foram geneticamente modificados para espalhar rapidamente as células mutantes.
(Brian Palmer contribui regularmente com a revista Slate Contato: explainerbrian@gmail.com.)
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