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10/03/2010

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Traumas emocionais podem levar ao câncer




Especialistas pretendem provar relação entre estresse e doenças diversas
Amanda Guerrera
da Reportagem
   Qual a relação entre o câncer e as emoções? Embora a maior parte dos médicos ainda associe as causas da doença apenas à hereditariedade ou ao estilo de vida, por exemplo, já existe uma corrente de especialistas defendendo que fatores de estresse psicossociais podem contribuir para o surgimento deste e de outros males.
   A recente morte da vereadora santista Sandra Arantes do Nascimento Felinto, filha de Pelé e vítima de complicações decorrentes de um câncer de mama, trouxe a discussão à tona novamente.
   Para a medicina clássica, os fatores desencadeadores da doença estão associados, além da predisposição genética do paciente, ao estilo de vida, como sedentarismo, tabagismo e consumo de álcool, e no caso das mulheres até ao uso de anticoncepcionais e de reposição hormonal.
   No entanto, nos últimos anos, vem ganhando espaço uma nova área médica que tem como objetivo buscas evidências científicas sobre a influência das situações de estresse na diminuição da função imunológica e conseqüentemente, no aumento da susceptibilidade a doenças - que podem desde uma simples alergia até o surgimento de neoplasias (câncer).
   Batizada de Psiconeuroimunologia, a linha de estudo - que ainda engatinha no Brasil - não esta baseada em nenhuma tese revolucionária.
   Na pratica, os fundamentos desta nova área remetem a uma teoria defendida pelos primeiros filósofos e pensadores da Humanidade: a existência de uma interação entre corpo, mente e alma (psique).
   "Na verdade, a Psiconeuroimunologia traz um novo paradigma para a medicina, que é o da integração. Por meio dela, seremos capazes de explicar porque o homem adoece, como adoece e, logo, conseguiremos propor uma nova forma de abordagem e de tratamento. Mas é lógico que há muita resistência dos médicos que, aqui no Brasil, ainda não acreditam nesse caminho", explica a psicanalista, homeopata e psiconcologista, Graça Marques Ibiapino.
   
   Diretora executiva e fundadora do Núcleo de Apoio ao Paciente com Câncer (Napacan) e membro do Instituto de Medicina Avançada, Em São Paulo, Graça afirma que o eixo central desta nova área médica está na interface entre os sistemas neuropsicológico, endrócrino e imunológico do ser humano.
   "Já existem estudos que demonstram, sem nenhum receio, que situações emocionais carregada de altos níveis de estresse desencadeiam doenças graves, sim", afirma ela.
Indivíduos submetidos a situações de estresse, esclarece a psiconcologista, apresentariam respostas celulares e glandulares imunológicas alteradas.
   "Por isso descargas neuropsicológicas descomunais, provocadas por traumas severos, geram um verdadeiro cataclisma orgânico que abre portas para doenças como câncer, por exemplo", diz ela.

   "Adoecemos porque, na verdade, não conseguimos gerenciar nossas emoções, traumas, rejeições e perdas, como a morte de um cônjuge ou de um parente próximo, a perda do emprego. E, tudo isso são fatores geradores do estresse", completa o mestre em Saúde Coletiva, professor da Universidade Católica de Santos e psiconeuroendocrinoimunologista, Héctor Ricardo Ojunian.
Emoções
"Descargas neuropsicológicas descomunais, provocadas por traumas severos, geram um verdadeiro cataclisma orgânico que abre portas para doenças como o câncer" 
Graça Marques Ibiapino
Psiconcologista






Sistema Nervoso Central e imunológico são afetados
    Segundo os especialistas, o estresse afetaria diretamente o funcionamento do sistema nervoso central e a sua comunicação com o sistema imunológico.
   Com isso há a liberação de hormônios que regulam células, glândulas e órgãos (nodos linfáticos, medula óssea e baço, por exemplo) envolvidas no mecanismo de defesa do corpo.
   "Já se sabe que o estresse provoca o aumento de adrenalina, o que implica em prejuízos para o funcionamento do baço - responsável, enter outras funções, pela produção de glóbulos brancos (defesa)", explica Graça.
   O mesmo ocorre, segundo ela, com as supra-renais, glândulas endócrinas localizadas sobre os rins que controlam o equilíbrio metabólico, regulando a resposta ao estresse.
   Com o ritmo alterado em razão de altos níveis de estresse, estas glândulas tendem a liberar cortisona em excesso - o que pode acarretas em uma queda na imunidade.
   Com relação ao câncer, especificamente Ojunian e Graça são enfáticos: estudos já demonstrariam que situações de estresse crônico provocadas por traumas (divórcios, mortes, problemas no trabalho e rejeições sentimentais) atingem em cheio as chamadas células NK (Natural Killer). São elas as responsáveis pela "vigilância" do organismo no combate às células cancerígenas.
   "A partir da maturidade, todos nós produzimos células com mutações, células com anomalias, que são normalmente combatidas pelas NK. Mas, quando as pessoas não conseguem elaborar seu processo de estresse, há uma queda na produção das NKs, o que favorece a proliferação das células cancerígenas e o surgimento de tumores", esclarece Ojunian.
   No entanto, para o especialista em Saúde Coletiva, não se pode afirmar que este será o único fator para o surgimento desta e de outras doenças.

    "Fatores externos, carga genética, estilo de vida e o próprio meio ambiente também contribuem. É um conjunto. Mas as emoções exercem uma grande influência".
Prevenção
   Uma das saídas para evitar o surgimento de doenças graves em razão de traumas, sugere Graça, pode estar na psicoterapia, por exemplo.
   "Pessoas que estão sofrendo ou sofreram choques emocionais ou que estão sob situações de estresse crônico devem buscar formas de fortalecer seu sistema neuropsicológico; como a psicoterapia".

   Outras opções podem ser a procura por sessões abertas de terapia em grupo, atividades físicas como esporte na água, e até ioga e meditação.
   "Não defendemos que as pessoas abandonem os exames e tratamentos clássicos, mas que procurem, ao mesmo tempo, desenvolver a capacidade de lidar com as suas emoções, que deixem de ser analfabetos emocionais, que aprendam a se livrar do seu lixo emocional", aconselha Ojunian.
Outras informações
Mais informações sobre o trabalho desenvolvido pela psiconcologista Graça Marques Ibiapino podem ser obtidas pelo site www.napacan.org.br, pelo e-mail grace.marquez@uol.com.br ou por meio do Instituto de Medicina Avançada, no telefone: (11) 2141-1400. Já o médico Héctor Ricardo Ojunian pode ser localizado em seu consultório, pelo telefone: (11) 3235-2560. Ojunian promove reuniões de autoconhecimento às segundas, quartas e quintas-feiras, às 10 horas, no Cine Arte Posto 4, no Gonzaga, e nos mesmo dias, às 8 horas, no Parque Ipupiara, em São Vicente. Ambos serviços são gratuitos e promovidos pelas prefeituras das duas cidades. As reuniões são abertas e não é preciso se identificar.





Discussão é vista com reserva pela maior parte dos médicos
    Apesar de já ser alvo de estudos em algumas instituições, como a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade Estadual de Londrina (UEL), a Psiconeuroimunologia e a sua relação com o surgimento de neoplasias é vista com reserva por médicos que lidam na prevenção, detecção e tratamento da doença. O argumento mau utilizado é que não existem estudos científicos conclusivos sobre o assunto.
   "Os aspectos emocionais fazem parte da nossa vida. Mas não há nada esclarecido nesta área ainda. Não há muito estudo de causa e efeito que mostre resultados consistentes relacionando as emoções e o câncer. A causa da doença é ainda um mistério", afirma o médico mastologista e representante regional da Sociedade de Mastologia do Estado de São Paulo, Vicente Tarricone Júnior.
  
 Segundo o médico, que é professor da Faculdade de Medicina do Centro Universitário Lusíada (Unilus), o que existe, atualmente, são linhas de pesquisa que tentam comprovar esta relação. "É claro que o emocional participa do processo, mas como se dá essa participação, não se sabe. Não dá para ser determinista".
   A opinião é compartilhada pelo mastologista, chefe do Serviço de Mama do Hospital, na Capital, e professor de Unilus, Domingos Petti.
   "É uma hipótese que não pode deixar de ser considerada. Mas daí a dizer que traumas geram câncer é muito arriscado porque são campos de estudo que ainda estão começando a se abrir, avalia ele. 

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